terça-feira, 20 de junho de 2017




À Procura de mim...



MOTE:
Por tanto amor, por tanta emoção,
A vida me fez assim: doce ou atroz,
Manso ou feroz, eu, caçador de mim...


Milton Nascimento








Eu me procurei
Nas ruas desertas
Nas praias repletas
Nos rostos infantis
Nas cores primaveris

Andei pelas ruas movimentadas
Em meio às pessoas apressadas
Pelos campos floridos
Entre rostos desconhecidos

E me vi retratada
Nos pontos distantes,
Nos mares ondulantes
Nas matas verdejantes

E me senti parte do céu brilhante
Da gente passante,
Da flor brotando, nos campos floridos
E do ser apressado, meu desconhecido

E percebi que sou criança, ainda,
Espírito jovem, aprendiz,
Que nunca deslinda
O mistério do ser e das paixões febris.

Jane Moreira





sábado, 5 de novembro de 2016

Lágrimas





Lágrimas

Minhas lágrimas que transbordam,
como ondas bravias, reluzentes,
São como o chamamento do mar....

Cabeleira ondulante, ponto de partida,
que dos meus  olhos brotam,
ardem e,  invadindo minha face, rolam..

Rolam na face, como se rolassem nas pedras...

Ponto de partida das emoções represadas.


Jane Moreira




sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Pobre irmão



Um tributo aos nossos irmãos refugiados, milhões que,
desamparados, esperam acolhida em outras terras.

Pobre irmão...


O nosso irmão
Sobrevivente das guerras,
Sofre horror desumano,
Lá longe naquelas terras...

Ele procura alimento,
Faminto, foge do fogo.
Morre de fome e sedento.
Ele não joga o jogo...

O jogo dos poderosos,
Fomentadores das guerras...
É questão inaceitável,
Sua sorte abominável,

Por crime odiento e nefando,
Sua morte em vida execrável:
Vão morrendo, ou minguando
Sua triste sina esperando...

Sua pátria abandonando
Compaixão de outras terras esperando
Só tristeza e morte no caminho
Nunca um gesto de carinho....

Jane Moreira





Glosa de Trovas







Glosa de Trovas

Nesta noite eu quero tanto
Do luar o encantamento
E de estrelas lindo manto
E da terra os elementos


Nesta noite eu quero tanto
Exibir os meus talentos.
E para teu grande espanto,
Reviver nossos momentos.

Quero da brisa o acalanto,
Do luar os encantamentos.
Não quero lembrar do pranto,
E chega de sofrimentos.

Depois do amor, virá o nosso encanto,
Sons da noite, chamamentos.
E, de estrelas, lindo manto,
Cobrirá os sonolentos.


E assim eu sinto que me agiganto
E vamos juntos cavalgando nos ventos,

Ouvindo um canto tão santo,
E, da terra, os elementos.

Jane Moreira




quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ocaso da bailarina


Ocaso da bailarina

Em lindos palcos dançou...
E dançou com muitos parceiros.
Ganhou flores e dinheiro,
jóias e viagens ganhou...
Um dia, pelas voltas do destino,
dançando, foi ao chão.
Não houve mais flores...
Só dores e desilusão.

E no ocaso da bailarina,
sem a purpurina,
ficou só a lembrança,
uma rosa e ecos da dança...
E como se fosse menina,
na platéia inexistente,
vestida de cor-de rosa, dança somente
para a rosa  que ela mesma colheu...

Jane Moreira





Real 1 *Indriso*

Mote:

E embora o amor destruído
E o tanto que se sofreu
O tempo não foi perdido
A gente é que se perdeu
Mário Lago






Real

Real é a certeza
De saber que não temos defesa
Contra o tempo que vem nos julgar

É real e não faço segredo
Do nosso medo
De não podermos mais consertar

Real foi a paixão, paixão sem rumo,

Que nos perdeu na vida fora de prumo.

Jane Moreira





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Velha dor





Velha dor

Na quietude da noite,
a chuva cai devagar.
O vento, como um açoite,
faz barulho de assustar.
É quando a dor se acentua
e a alma fica nua,
exibindo aquela dor antiga,
velha dor, minha arquinimiga,
que se mostra em meu  rosto crispado,
lágrimas caindo, olhar nublado,
Soluço vindo...

Jane Moreira


E tarde





É tarde

O medo tomou conta de mim.
Ando triste, triste é o caminho
Para quem anda sempre sozinho.
E andar sozinho, sem esperança, é morte.
Perdi o rumo, perdi o norte.
Minha vida é nostalgia.
Será tarde para a alegria,
Àquele que nasceu sem sorte?

Jane Moreira



Real - Indriso








Real  -  Indriso

Real é o amor, a paixão, o segredo.
Real é a certeza no íntimo do ser.
Real é a verdade e o medo.

Real é a flor, o sabor, a razão,
o aroma e você. E a coragem
de dizer não à ilusão.

Real é a vida, o desejo realizado.

É a morte, ou o sonho concretizado.



Jane Moreira








   

Os Sonhos





Os Sonhos 

A vida é a realidade
que alguns receiam encarar...
O sonho é a suavidade
muito fácil de se levar...

O sonho é o analgésico,
às vezes, até anestésico
para quem não ousa encarar
a vida de frente, com medo de ousar...

O sonho é a máscara, é a fantasia,
que pode entorpecer
as vítimas da melancolia.

O sonho é o abraço, o consolo
da gente carente,
pode, porém,  ser da verdade, a semente.

Jane Moreira



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Além deste horizonte




Entre o céu e o mar

Na imensidão do profundo mar,
Que não tem intervalo, e nem medida,
Contemplo o horizonte, pensativa
E procuro, na vastidão, alcançar
Ao menos, o rastro de um sonho
Que se foi, deixando-me perdida,
No espaço entre o céu e o mar.

Jane Moreira



Ao meu Pai


Papai




Ao meu Pai

Porque hoje,
Mesmo estando você no outro lado, eu te abraço
Porque hoje
Todos estão comemorando ao lado dos seus
Porque hoje,
O caminho que eu traço
É o caminho que você ensinou,
Porque hoje a saudade ainda dói...
Porque ainda hoje, não consigo
Ser poetisa, ser nada mais que sua filha.
Sua filha que te ama
Jane Moreira
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Pai!


Ele chegou sorridente,
Já trazia a alma em festa.
Entrou no berçário, contente
E apontou: minha filha é esta.

E foi assim nosso primeiro encontro
E nosso primeiro grande presente.
Um dia, dar-se-á nosso reencontro,
Numa nova condição permanente.

E presente, ainda em minha vida,
Aquele que foi responsabilidade
E que ficou depois de sua partida...

Ele partiu ainda na flor da idade,
Aos sessenta e eu, ainda hoje, aturdida,
Pela infinita dor da saudade.

Jane Moreira




domingo, 30 de outubro de 2016

Poemeto do lar






Poemeto do Lar

Lar,
doce lar,
Onde
reina a simplicidade,
E aconchego.
Pode ser
Refúgio
E tem
hospitalidade.
Tem
beleza e tem arte.
E tudo
isso faz parte
De um
lar feliz de verdade.

Jane Moreira



Cigana



Cigana

Rainha na dança,
mulher sedução...
Nos olhos do homem,
o desejo enlouquece
e entorpece...

E então ela dança,
descalça, ela avança,
recua e trança,
pra lá e pra cá...

Ela não se cansa
do ritmo veloz na dança,
que é dança herança
de seus ancestrais...

Seu corpo balança
e seu olhar lança
fogo e paixão...
No frenesi da canção,
sua rosa cai leve ao chão...

E ela dança
e trança
pra lá e pra cá.
No ritmo da paixão,
Velas queimam
e queima 
e inflama
o cigano que por ela clama.

E solta na dança,
avança,
recua e trança,
nas voltas que faz.
E ele, espera, querendo... 
De paixão ardendo.

Seu corpo balança
na dança e lança
fagulhas no ar...
E dançando
faz todo o lugar
se eletrizar...

Mulher cigana,
feiticeira,
acende a fogueira
E, suavemente, o homem atiça,
despertando a cobiça,
essa mulher que enfeitiça...

Cigana, na dança que encanta,
a todos conquista.
E ele, desejo contido,
pela paixão vencido,
está pronto para amar...

Jane Moreira



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Perfume de mãe




Perfume de mãe

Chego à casa de repente,
procurando a mão amiga,
que me abraça e nunca se fatiga...

A mão amorosa que ampara,
que cuida, abriga
e não castiga.

A mão macia,
que acaricia,
alimenta com alegria.

A mão que, em carinhos, se resume,
a mão que, lá dentro daquele abrigo,
exala aquele mesmo perfume.

Perfume de mãe, perfume de amor,
Que meus erros perdoa
Que desconhece o que seja rancor.

Jane Moreira




terça-feira, 25 de outubro de 2016

Paradoxo


Mote:
Quero-te só porque a ti te quero,

Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.''


Pablo Neruda




Paradoxo

És o sol que me aquece
E a manhã fria de neblina.
Amo-te pelo calor que me ofereces,
Odeio-te pelo frio que te domina.

Amo-te se estás distante de mim,
A argola que me fere é a luz que me guia...
E eu amo e eu odeio amar assim,
Sem medida, sem alegria.

Eu não te quero tão junto a mim;
Se ficasses, eu, certamente, te odiaria.
Eu te quero bem longe de mim.
Aí sim, amar-te cegamente, eu poderia.

Jane Moreira



Rasgos e Remendos





Rasgos e Remendos

Meu enredo
É somente o medo
De rasgar minha alma.
Me perco quando me rasgo...
Mesmo rasgada, eu me benzo
E uma luz acendo...
E meu anjo faz o remendo...

Faço rezas e promessas,
Tentativas de cura e me culpo
E me castigo... E volto a alma rasgar,
Para depois meu anjo remendar...
É o remendo do irremediável...
E me perco nos parcos instantes,
Entre o breu e a luz dos remendos.

Na esfera que habito,
Vislumbro a fresta de luz
E tento me salvar inteira,
Reparando a costura costumeira,
Pobre e triste remendo de mim.
E segue remendada esta alma até o fim,
 Porque viver é luta, rasgo e remendo sim.


Jane Moreira



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Conto da Madrugada (PROSA)



Conto da madrugada

Madrugada fria, a noite chamava o dia que já havia partido com a última lâmpada que se apagou.... As gotas de orvalho se agasalhavam nas flores do jardim...
Não se ouvia ainda o coro da alvorada, pássaros em sua rotina de despertadores....
A brisa fria acariciava as árvores, que abrigavam os despertadores e a madrugada se arrastava lenta, querendo ficar, mas os primeiros raios de sol já se apresentavam para sua tarefa de aquecer e a madrugada tristonha que, sem alternativa, voltava para o norte, já estava quase se atrasando.
E o dia, que havia morrido, despertou para a nova vida, tentando mais uma vez, dar-nos uma nova chance de evolução.

Jane Moreira